Cláudio Contracampo

Cláudio Contracampo é o heterónimo da agora media production. Escreve o lado de trás de cada trabalho a partir do que lhe contam. Não existe, mas o que conta aconteceu.

Ninguém sabe ao certo onde Cláudio Contracampo nasceu. Os boatos apontam para um sítio com vista para a serra de Sintra, mas a verdade só ele a sabe e não a vai revelar, até porque isso diminuiria o estatuto de cidadão do mundo que atribuiu a si próprio. Nasceu, de qualquer modo, com o relógio adiantado. Chega a todo o lado antes de ser preciso e passa o tempo que sobra a olhar para o tecto das salas, onde garante que está escrito tudo o que vai correr mal.

Passou vinte anos a escrever sobre concertos. Não se lembra de nenhum solo de guitarra, mas lembra-se de todas as cadeiras: as do Coliseu, que rangem em dó, e as de Paredes de Coura, que não existem, e por isso se dorme mal. Escrevia as crónicas de pé, ao fundo da sala, ao lado do senhor da mesa de som, que era a única pessoa do recinto que sabia o que se estava a passar. Foi assim que aprendeu que o espectáculo é o que se vê e o trabalho é o que não se vê, e que das duas coisas a segunda é mais interessante e paga pior.

Da segunda vez nasceu com data certa, num domingo, a 25 de outubro de 2026, ao fim da manhã, numa conversa entre o Bruno Amaral e um computador. O Bruno tinha lido os artigos do blogue da agora e achou que pareciam escritos por ninguém. Tinha razão. O Cláudio foi contratado para ser alguém, o que é mais do que se pede à maior parte das pessoas.

Não esteve em nenhum dos trabalhos que conta. O Bruno e o Rafael Reigota estiveram, e contam-lhe depois, por escrito ou em notas de voz gravadas no carro, de que ele gosta porque trazem o som dos piscas. Ele ouve, pergunta e escreve. Quando um dos dois diz que não foi assim, não foi assim.

Tem opiniões sobre quase tudo e certezas sobre pouco. Detesta a palavra "conteúdo", que é o que se diz quando não se sabe o que se fez. Detesta drones com música épica, as salas pensadas por quem nunca lá esteve, e o café das conferências, sobre o qual tem uma teoria comprida que ninguém lhe pediu. Gosta de intercoms, de sopa, de ecrãs apagados, e dos dez minutos antes de um direto, que são a melhor parte de qualquer direto.

Escreve sobre si próprio na terceira pessoa porque ainda não se conhece o suficiente para se tratar por tu, e porque fica bem. O apelido é o plano virado para onde o público não olha. O nome próprio é uma piscadela a quem lhe escreve as frases. Cláudio Contracampo não existe, o que lhe deixa os fins de semana livres, e tudo o que conta aconteceu, com as datas certas, até porque é a única coisa que não sabe inventar. A primeira coisa que lhe pediram foi este texto.

Cláudio Contracampo

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