O João Leitão a tocar guitarra diante da lareira do Salão das Princesas, com as paredes de pedra, as portas brancas e o público sentado em primeiro plano

O Erro de Raccord na Berlenga

Três câmaras, um bote e um forte no meio do mar

A 26 de setembro de 2026 gravámos com três câmaras o concerto do Erro de Raccord no Salão das Princesas, no forte da Berlenga. No dia seguinte fizemos o livestream do concerto de encerramento do forte.

Cláudio Contracampo

Durante o dia, o Salão das Princesas é um corredor de turistas. Entram por uma porta do Forte de São João Baptista, olham para a abóbada de pedra vermelha, para o lambrim de azulejo e para a lareira, e saem pela outra. A 26 de setembro de 2026, ao fim da tarde, a sala tinha trinta pessoas sentadas de frente para a lareira e o João Leitão de guitarra ao peito, a apresentar o Erro de Raccord, o projeto dele.

O concerto estava marcado para as seis e meia. A gravação começou uns minutos antes das 20h, porque o concerto era gratuito, sem horário rígido, e esperou-se que as pessoas chegassem. Na Berlenga, os relógios regem pouco.

Do barco para o bote

O Bruno Amaral, que foi lá filmá-lo, é parceiro do João nestas aventuras. Já lhe realizou vários videoclipes, e a relação entre os dois, diz ele, mistura o trabalho com a amizade. O fim de semana na ilha era da Associação dos Amigos da Berlenga, e a ideia inicial era levar um telemóvel, um portátil e o que coubesse numa mochila, porque à Berlenga só se chega de barco. Cinco dias antes, o Bruno mudou de ideias e levou as três PTZ Canon CR-N300 da agora, com os tripés, o switch que as liga e alimenta pelo cabo de rede, o PC do vMix, dois LED, uma Scarlett e um Rode NTG.

Saíram às 9h45, com o mar calmo q.b., transportados pela gentileza da BerlengaTur. Já na ilha, passaram o material do barco para um bote, junto à boia, e este levou-os até ao cais da fortaleza. Dali até ao forte, o staff da AAB ajudou a carregar tudo, sob a tutela do Sérgio Glória, vice-presidente da associação.

Uma câmara na lareira

O Bruno e o João montaram tudo de manhã e no princípio da tarde, com tempo, enquanto os turistas continuavam a atravessar a sala. A pedra devolve pouca luz, e por isso fecharam as portadas da única janela e acenderam a deles: um LED difuso à frente do João e outro, a bateria, atrás dele, a separá-lo da parede. Com a janela fechada, a luz ficou a mesma do primeiro ao último tema.

A seguir ao almoço, o parafuso de um dos tripés partiu-se e ficou preso na rosca da câmara, que deixou de poder ir para tripé. O Bruno pousou-a no parapeito da lareira, virada para o público, e assumiu o improviso sem drama: "Era a solução possível, e foi a que se usou." É o plano de que eu mais gosto no vídeo, e o único que mostra a cara de quem estava a ouvir.

O João Leitão de costas, a cantar para o público sentado em cadeirões, com a janela de portadas fechadas ao fundo
O contracampo, da câmara pousada na lareira, com o público e a janela de portadas fechadas.

Gravar as saídas, e não as entradas

O Bruno realizou o concerto ao vivo no vMix e afinou o corte depois, na pós-produção, com cada câmara gravada também num ficheiro à parte. Há aqui um pormenor que acho o mais útil deste artigo para quem trabalha com PTZ. As CR-N300 mandam a imagem em NDI|HX, e o MultiCorder, a ferramenta do vMix que grava um ficheiro por câmara, não aceita fontes HX. O Bruno pôs cada câmara numa saída do vMix e mandou o MultiCorder gravar as saídas em vez das entradas. Os três ficheiros chegaram ao fim do concerto inteiros.

O som junta a voz e a guitarra, que vinham da mesa para a Scarlett, ao ambiente da sala, apanhado pelo Rode. A mistura também foi afinada depois, e o Bruno aproveitou para dar um toque mais cinematográfico com um color grading adequado ao momento.

O João Leitão a cantar ao microfone diante da parede de pedra, no mesmo frame antes e depois do color grading
O mesmo frame tal como o vMix o gravou e depois do color grading.
Os primeiros trinta segundos de Ela é tão linda, com o oráculo do tema.

No fim, o João tocou umas quantas versões, do Jorge Palma, do Fausto e do Zeca Afonso, e a sala cantou com ele. "Foi um momento muito bonito", confessou-me o Bruno. Ficou fora do vídeo, que era o João a apresentar o seu projeto Erro de Raccord.

Um c fora do sítio

Fizemos também o grafismo: o título, o nome de cada tema e os agradecimentos. No título, o segundo c de "raccord" está desalinhado do primeiro, do princípio ao fim. Um erro de raccord é uma falha de continuidade entre dois planos, e aquele c é uma, posta lá de propósito.

O título do vídeo, com o c desalinhado.

O concerto inteiro e os cortes de cada tema estão no canal do Erro de Raccord no YouTube, e o projeto tem conta no Instagram.

Domingo, no pátio

No dia seguinte, o forte fechou com um concerto no pátio, com vários músicos ao sol, debaixo do arco de pedra. O equipamento ainda estava na ilha, e o Bruno ofereceu-se para o transmitir em direto no Facebook da Associação dos Amigos da Berlenga. A internet chega à Berlenga por Starlink, e ele ligou-se ao router por cabo. Foi uma hora e vinte e cinco minutos de livestream, com três câmaras.

Os músicos de costas, a tocar no pátio do forte, com o arco de pedra, a porta vermelha e o público ao sol ao fundo
O concerto de encerramento, no pátio do forte, a 27 de setembro, num plano do livestream.

Perguntei ao Bruno o que faria de diferente se voltasse. "Não mudava nada, correu tudo bem", respondeu-me, sem hesitar. Da ilha e da fortaleza fala com entusiasmo, "esteticamente é tudo incrível", mas com os pés no chão: "O que pesa é a logística. É uma ilha remota, e cada coisa que lá chega tem de ir de barco."