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O salão do Clube Recreativo Penichense durante o concerto, com o público às mesas, de costas, e o Nuno Rebelo ao fundo, sentado com a guitarra, diante das cortinas iluminadas

As cantigas do Nuno Rebelo

Uma noite do Sem Muralhas no Clube Recreativo Penichense

A 3 de outubro de 2026 gravámos o Nuno Rebelo e as Cantigas Tugas numa noite do ciclo Sem Muralhas, em Peniche, com três câmaras e uma régie de uma pessoa só. Dois dias depois, fizemos do cartaz as intros dos vídeos.

Cláudio Contracampo

Há salas que se filmam e salas que se ouvem. O salão do Clube Recreativo Penichense, dentro do Jardim das Rendilheiras e com mais de cem anos, é das segundas. Não tem palco. Os músicos tocam ao fundo, à frente de umas cortinas compridas, e o público senta-se às mesas com os copos, logo à frente de quem toca, como numa tasca onde se canta entre os pratos. Foi para ali que o Bruno Amaral levou três câmaras na noite de 3 de outubro, um sábado, para gravar um concerto inteiro numa sala das que se ouvem.

Era uma noite do Sem Muralhas, o ciclo que a Associação Cultural Onda abriu em junho no coreto do mesmo jardim. A noite começou com o Paulo Chagas, o mentor do ciclo, de pé e de microfone na mão. Tocou primeiro o João Leitão, com o Erro de Raccord, e depois o Nuno Rebelo, com as Cantigas Tugas.

O Nuno e o cancioneiro

O Nuno Rebelo nasceu em Torres Vedras em 1960, tocou nos Street Kids e dirigiu os Mler Ife Dada de 1983 a 1989. Quem só o conhece daí talvez não espere o que ele anda a tocar agora. As Cantigas Tugas são o cancioneiro nacional, as cantigas que toda a gente ouviu a alguém, com arranjos dele e tocadas só à guitarra, sem letra. Estrearam no Zaratan, em Lisboa, em novembro de 2025, num concerto que o Zaratan anunciou como o "novíssimo e babilónico projecto" do Nuno. Não encontro palavra melhor do que babilónico.

Em Peniche tocou sentado, com uma Epiphone Masterbilt de caixa ao colo e umas folhas soltas em cima dos joelhos. Para que eram, não sei. Que eu saiba, o Nuno toca este reportório de memória, e as folhas foram com ele para o concerto como quem leva o guarda-chuva num dia de sol.

Três Canon e uma régie de uma pessoa

O Bruno estava sozinho na régie, com o vMix e três câmaras Canon ligadas por NDI, que manda a imagem de cada câmara pelo cabo de rede em vez de um cabo de vídeo. O som chegava de dois sítios, da mesa do PA e de um microfone de ambiente. A luz de frente era nossa. A de decoração, que acende as cortinas de vermelho e laranja atrás dos músicos, foi emprestada pelo João Bello.

Montou as câmaras com a sala ainda vazia. Quando o público se sentou, as cabeças ficaram mais acima do que ele tinha calculado, como a maré que sobe enquanto se estende a toalha, e nalguns ângulos passou a haver uma nuca entre a câmara e o Nuno. A noite saiu em direto no canal da Onda no YouTube, e ao mesmo tempo gravámos quatro ficheiros em paralelo, das 22h03 às 23h33. Nenhum perdeu um frame.

Grande plano da mão esquerda do Nuno Rebelo no braço da guitarra, junto à cabeça da Epiphone Masterbilt, com a t-shirt preta às pintas por trás
A Epiphone Masterbilt do Nuno.

O color grading e os acertos ficaram para o dia seguinte. O Bruno quis entregar os vídeos à Onda o mais depressa possível, e fê-los como quem arruma a casa com as visitas já a caminho, sem grandes voltas, mas com a diferença à vista.

O Nuno Rebelo de frente, ao microfone, a sorrir para a sala, com as cortinas atrás, no mesmo frame antes e depois do color grading
O mesmo frame tal como saiu no direto e depois do color grading.

Dezasseis segundos de cartaz

O cartaz do concerto é um desenho plano em papel, à maneira de Miró, com o título a pincel, uma guitarra a traço e estrelas e bolas de cor à volta. No próprio dia animámo-lo num loop de 16 segundos, que ficou no vMix à espera da hora. A 5 de outubro, dois dias depois, o Bruno fez as intros dos vídeos do concerto, uma para a gravação completa e uma para cada músico. "Porque não haveria de as fazer?", diz-me ele.

No loop, os nomes ficam quietos e é tudo o resto que mexe. As estrelas rodam, as bolas andam em órbita, as cordas da guitarra vibram a cada rasgado e saem-lhe colcheias da boca, que sobem e se apagam como o vapor de uma chávena. Ao fim de dezasseis segundos tudo está outra vez no sítio, e o loop recomeça sem se ver a costura.

O loop de 16 segundos feito a partir do cartaz.

O João Leitão tocou antes, com as canções do Erro de Raccord. Uma semana antes tínhamos estado com ele na Berlenga, e essa noite tem o seu próprio artigo.

O João Leitão a cantar ao microfone, em grande plano, com as cortinas atrás
O João Leitão, que abriu o concerto com o Erro de Raccord.

O direto continua no YouTube da Onda. O edit final, com o grading, foi para a Onda e ainda não está publicado. Tem uma hora e vinte e oito minutos, e abre com o cartaz a pintar-se e, logo a seguir, o Paulo Chagas de microfone na mão, como a noite abriu.